O “Nascimento da vida” ou do desejo de viajar…

Durante minha vida estudantil, participei do imenso grupo que abominava as disciplinas exatas (Matemática e derivadas) e idolatrava as humanas (História, especificamente). Como um adolescente que sonhou seguir diversas profissões (de astronauta a médico infectologista), minha imaginação era algo potente e capaz de criar cenários e situações incrivelmente reais. Analisando pela perspectiva atual, esse poder ilusório amadureceu, juntamente com meus ideais, com outro nome “mais adulto”: sonhos!

A recordação é nítida: ao abrir um novíssimo livro de História, no início de um ano escolar, eu a vi pela primeira vez… Uma paixão arrebatadora! Antes que seus pensamentos o(a) levem a acreditar que era uma pessoa – uma paixão juvenil –, esclareço: foi uma igreja. Irônico, não é mesmo?! Rapidamente, li as informações sobre o local: “A igreja da Sagrada Família, localizada em Barcelona/Espanha, é um projeto de Antonio Gaudí, que faleceu antes de ver a sua obra concluída, atropelado por um bonde em 1926. Atualmente, a igreja recebe doações para finalizar suas obras”. Após imaginar diversas cenas, inclusive de como chegar até a Espanha, fechei o livro e prometi conhecê-la.

Alguns anos se passaram, novas ideias, objetivos e sonhos. Infelizmente, nossa mente sobrepõe novos conceitos e esquecemos, às vezes para sempre, de algumas promessas que poderiam trazer grandes felicidades. Mas a vida sempre está disposta a nos resgatar e jogar a semente novamente. Sou fã incondicional do diretor espanhol Pedro Almodóvar e, ao assistir em 1999 o seu grande sucesso “Tudo sobre minha mãe”, o sonho reacendeu: em uma cena, a personagem Manuela (Cecilia Roth) retorna a Barcelona. Em um instante, o táxi para e ela abre o vidro para contemplar a Igreja da Sagrada Família. Na mesma semana, comprei minha passagem!

Durante nove meses – uma gestação –, organizei todos os detalhes possíveis e imagináveis. Em uma previsão rica de detalhes, simulei todas as situações que poderiam ocorrer. Seria minha primeira viagem internacional e, o medo de muitos, sozinho. Em um caderno, anotei todos os passos, detalhes, hotéis, informações… Uma Bílbia seguida fielmente. O custo de uma viagem para outro país é alto e eu não poderia passar por crises financeiras durante o percurso. E assim – já que comparei com o livro religioso –, o primeiro mandamento da minha vida de turista surgiu: planejamento acima de tudo!

Barcelona foi inserida no início do roteiro, típico de uma pessoa que começa a comer o bolo pelo recheio. Uma visita rica em detalhes: peguei um táxi, escutando a mesma música usada no filme do Almodóvar nos fones de ouvido e estacionei em frente à igreja. A imaginação adolescente, transformada em sonho de adulto, estava materializada e eu poderia tocá-la, apreciar todos os detalhes, as formas e descobrir o que faltava construir naquele local que foi a obra da vida – e morte – de um visionário.

Em sua concepção, não há linhas retas, já que Gaudí se inspirava em formas cíclicas e desenvolvidas para atingir uma idealização uniforme e abstrata, sem menosprezar a força do concreto… assim como os fatos que me levaram a realizar minha promessa. Uma das fachadas da igreja representa o “Nascimento da Vida”, a única construída enquanto o arquiteto estava vivo. Assim como para Gaudí há o nascimento da vida, em mim, no instante em que vislumbrei a igreja, houve o nascimento do desejo de conhecer o mundo…

sagrada

Igreja Sagrada Família – Barcelona/Espanha

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